sexta-feira, 11 de abril de 2014


IRONIA OU PROVOCAÇÃO FILOSÓFICA?

 

 

            Esta situação pode ser analisada a partir de dois pontos de vista: do ponto de vista pedagógico e do ponto de vista filosófico.

            Do ponto de vista pedagógico, penso que houve dois equívocos no processo avaliativo.

            O primeiro refere-se à escolha do instrumento de avaliação utilizado pelo professor para aferir a aprendizagem dos estudantes. Trata-se de um instrumento avaliativo fechado, de caráter seletivo, excludente e classificatório por ter como objetivo julgar e, consequentemente, aprovar ou reprovar o estudante.

            Por se tratar de um instrumento característico da cultura do exame é também pontual, porque leva o educando a saber responder as questões, aqui e agora, quando da realização das provas e dos testes, sem se importar se o estudante sabia e se confundiu e se poderá vir a saber, depois. Essa prática exige que o educando saiba responder, pontualmente, aqui e agora, o que está sendo questionado, sob pena de não servir para nada.

            É também estático porque tende a classificar o estudante num determinado nível de aprendizagem, como se este nível fosse definitivo. Daí o uso de notas por números, visando classificar o educando numa posição definida dentro de uma escala.

            Como não há nenhuma pretensão de incluir, mas de excluir, é também antidemocrático. Ou seja, dá fundamento a uma prática pedagógica autoritária. Isto é, com essa prática, o sistema de ensino e o educador tem em mãos um instrumento de poder, cuja autoridade é transformada em autoritarismo.

            Portanto, a utilização desse tipo de instrumento torna-se inadequado para a avaliação do processo ensino-aprendizagem por não favorecer o diagnóstico e, muito menos, de possibilitar a sinalização dos impasses que ocorrem no processo de aprendizagem, os quais podem ser de ordem psicossocial ou de ordem patológica – quando se referir aos educandos: ou de ordem metodológica - quando se referir, ou melhor, quando sinalizar a necessidade de reformulação na metodologia do professor.

            A avaliação, ao contrário, é diagnóstica, isto é, tem por objetivo diagnosticar a situação de aprendizagem do estudante, visando perceber o momento certo da tomada de decisão que possibilite o desenvolvimento qualitativo do desempenho do educando. Diagnóstico este que deve ser processual, ou seja, a avaliação opera com resultados provisórios, o que favorece ao educando a apresentação de resultados cada vez melhores e mais satisfatórios em sua aprendizagem.

            A avaliação é dinâmica porque não classifica o educando em um determinado nível de aprendizagem, mas diagnostica a situação para melhorá-la, a partir de novas decisões pedagógicas. Sendo assim, a facilidade para a efetivação do processo de inclusão, acontece, de fato, mediante a subdiação da busca de fórmulas que visem o aprendizado de tudo que favoreça o desenvolvimento da espécie, sem fazer a seleção dos “melhores” e a exclusão dos “piores”.

            Esse aspecto caracteriza a avaliação como um ato democrático por está a serviço de todos e por desenvolver atividades pedagógicas em conjunto, sem fazer distinção entre aqueles que tem mais dificuldades, daqueles que aprendem com mais facilidade. Por esta razão, o ato avaliativo é uma prática pedagógica dialógica, cujo diálogo deve ser um ato constante entre educadores e educandos, visando o estabelecimento da efetiva aliança no desenvolvimento do trabalho que contemple a construção do conhecimento democrático pelos sujeitos da prática educativa.

            O segundo equívoco refere-se à incompatibilidade no uso desse tipo de instrumento na avaliação da aprendizagem em áreas do conhecimento que requer do estudante maior esforço no expressar de ideias que tenham como base o raciocino lógico, como é o caso da filosofia que é uma disciplina pensante e que provoca o pensar do, até então, impensado.

            Assim, torna-se aconselhável a utilização de um instrumento avaliativo aberto que permita o expressar da unicidade de cada estudante. Isto é, o expressar das idéias e análise crítica de cada ser pensante, especificamente.

            Do ponto de vista filosófico penso que a atitude do professor pode ter partido de duas pretensões, a saber: a da ironia e a da provocação filosófica.

            Da parte da ironia, fica claro esse tipo de pretensão quando, na introdução da questão, o professor atribui à cantora a qualidade de “pensadora contemporânea” o que se caracteriza como ironia porque o professor afirma ser o que a cantora não é. Sendo assim, considero ter sido infeliz na sua colocação porque a filosofia não faz nenhum tipo de apologia à ironia, tão pouco forma profissionais irosos. O papel do filósofo é, por assim dizer, de provocar a parição de idéias e de alisá-las por meio da investigação radical, rigorosa e global.

            Da parte da provocação o professor pode ter pretendido estabelecer um momento de reflexão filosófica sobre a idéia de que a frase expressa pela cantora obtivesse um teor puramente filosófico – o que não pode ser contestável- só que de uma filosofia qualquer, fruto do achismo subjetivo.             Contudo, parece-me que a problemática fica por conta da elaboração da questão que poderia, como sugestão, ser da seguinte forma: Com base no que estudamos sobre lógica, analisem o trecho abaixo, extraído da música (......) da cantora (...) e escrevam um pequeno texto expressando suas idéias sobre o mesmo.

            Esse tipo de avaliação, mais conhecida como avaliação aberta, iria permitir que educando expressasse a sua unicidade, além, é claro, de possibilitar ao professor a avaliação objetiva da lógica presente ou a falta  dela no texto apresentado pelos educandos. É importante lembrar que a parametrização da questão – que é imprescindível em qualquer prática avaliativa- fica por conta do estudo feito anteriormente sobre lógica e do direcionamento da lógica que, neste caso, poderia ser sobre uma possível crise cultural contemporâneo da MPB.

            De qualquer forma, o fato é que, ao elaborar a questão, o professor, além de ter se equivocado pedagogicamente (por ter elaborado uma questão imprópria para a avaliação da aprendizagem, conforme mencionei anteriormente), tornou-se infeliz pelo teor irônico da questão (se este for o caso). Com a palavra, você, caro leitor.

 

 

 

 

 

 

 

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